Onde Guardamos Nossos Desejos Depois dos Quarenta

Um convite para resgatar planos esquecidos na gaveta e reaprender a se colocar no centro da própria narrativa com maturidade e sem culpa.

AUTOCONHECIMENTO

Ilvia Hortz

9/20/20265 min ler

Onde Guardamos Nossos Desejos Depois dos Quarenta

Recentemente assisti ao filme A Vida Secreta de Walter Mitty e ele falou profundamente comigo.

Assim como o personagem, passei muitos anos imaginando possibilidades, sonhando com lugares, experiências e versões de mim mesma que talvez nunca chegassem a existir. Enquanto isso, a vida seguia seu curso, com filhos para criar, contas para pagar, trabalho, responsabilidades e decisões difíceis.

Hoje tenho 41 anos e, olhando para trás, percebo que grande parte da minha energia foi dedicada aos outros. Não me arrependo disso. Amo meus filhos e sou grata por tudo o que vivi. Mas também reconheço que, em algum momento, alguns dos meus sonhos foram silenciosamente guardados em uma gaveta.

Este texto é um convite para refletirmos juntas sobre os desejos que ficaram pelo caminho e sobre como podemos resgatá-los sem culpa, mesmo depois dos quarenta.

Sonhos Esquecidos

Quando faço um exercício de voltar à infância e à adolescência, encontro uma menina cheia de curiosidade e sonhos.

Eu era fascinada pela NASA, pelas estrelas, pela arte, pela música e pela comunicação. Gostava de observar jornalistas e apresentadores. Admirava a espontaneidade com que falavam e conseguiam se conectar com as pessoas.

Também tinha sonhos simples.

Queria assistir a um grande show de rock.

Queria conhecer um daqueles parques de diversão gigantes que apareciam nas propagandas da televisão.

Por um tempo, sonhei em ser aeromoça.

Mais tarde, desejei morar na Alemanha, mas na época isso não foi possível. Sonhava aprender inglês, conhecer a Disney e viver experiências diferentes daquelas que conhecia.

Nenhum desses sonhos desapareceu.

Eles apenas foram ficando para depois.

A maternidade chegou e transformou completamente minha vida. Se alguém tivesse me perguntado aos vinte anos qual era o meu maior sonho, dificilmente eu responderia "ter filhos". Hoje, porém, reconheço que ser mãe foi uma das experiências mais bonitas e transformadoras que já vivi.

Mas existe uma diferença importante entre priorizar algo e abandonar a si mesma.

Sem perceber, fui deixando meus próprios desejos em segundo plano.

Por amor.

Por responsabilidade.

Por acreditar que um dia haveria tempo para eles.

O Divórcio e o Autoconhecimento

Minha maior transformação começou durante um dos períodos mais difíceis da minha vida.

O nascimento do meu terceiro filho foi seguido pelo processo de divórcio.

Foi uma fase marcada por questionamentos, desafios emocionais e dificuldades financeiras. Como muitas mulheres, precisei descobrir uma força que nem sabia que possuía.

Mas foi justamente no meio daquela tempestade que comecei a olhar para mim.

Até então eu sabia muito sobre as pessoas ao meu redor.

Sabia quais eram as comidas favoritas dos meus filhos.

Sabia o que os deixava felizes.

Sabia suas preferências, seus medos e seus sonhos.

Mas não sabia responder uma pergunta simples:

Quem sou eu além dos papéis que desempenho?

Essa pergunta iniciou uma jornada de autoconhecimento.

Comecei a analisar minha história, minhas escolhas, meus relacionamentos e meus padrões de comportamento.

Aprendi a dizer não.

Aprendi a estabelecer limites.

Aprendi que amor não significa anulação.

E percebi que algo muito difícil havia me conduzido a uma descoberta extremamente valiosa: eu ainda existia além das minhas responsabilidades.

A Redescoberta e Novos Interesses

À medida que fui me reconectando comigo mesma, alguns interesses antigos começaram a reaparecer.

Um deles foi a comunicação.

Percebi que sempre sentia prazer ao escrever textos, organizar ideias e construir mensagens capazes de tocar pessoas.

Com a popularização dos podcasts e dos canais no YouTube, passei a admirar ainda mais quem conseguia se comunicar de forma espontânea e autêntica.

Meus olhos brilhavam ao ver alguém compartilhando conhecimento, experiências e reflexões.

Ao mesmo tempo, mergulhei no universo do autoconhecimento.

Passei a consumir conteúdos sobre inteligência emocional, relacionamentos, autoestima, desenvolvimento humano e psicologia.

Descobri que amo aprender.

Hoje tenho interesse por temas como liderança, comunicação, inglês, radiestesia, espiritualidade, terapias integrativas e expansão da consciência.

Também percebi que ainda possuo vontade de empreender, criar projetos e desenvolver novas habilidades.

Foi nessa fase que compreendi algo importante:

Os sonhos não desaparecem com a idade.

Eles apenas ficam aguardando o momento em que estamos prontas para escutá-los novamente.

Entender Que Ainda Existe Muita Vida Para Viver

Talvez a maior mudança tenha sido perceber que a vida não terminou aos quarenta.

Durante muito tempo acreditei que algumas experiências não faziam mais parte da minha realidade.

Pensava que viagens especiais, novos projetos ou grandes sonhos pertenciam a outra fase da vida.

Eu estava enganada.

Depois do divórcio vivi momentos que jamais imaginei viver.

Um deles aconteceu em Santo Antônio de Lisboa, em Santa Catarina.

Era fim de tarde.

O sol se punha lentamente sobre o mar.

Ao meu lado estava João.

Havia um jantar especial, música ao vivo e um músico tocando violoncelo.

Tudo parecia uma cena de filme.

Naquele instante percebi quanto tempo havia passado acreditando que algumas experiências já não eram possíveis para mim.

Eram.

Sempre foram.

Eu apenas ainda não tinha chegado até elas.

Hoje continuo estudando inglês.

Continuo escrevendo.

Continuo desenvolvendo minha comunicação.

Continuo aprendendo sobre temas que despertam minha curiosidade.

Continuo sonhando.

Não porque quero voltar a ser quem eu era aos vinte anos.

Mas porque estou gostando de descobrir quem posso me tornar aos quarenta.

Reflexão

Hoje entendo que os sonhos não desaparecem quando entramos na maturidade.

Eles apenas ficam mais silenciosos.

Esperam que a correria diminua, que a culpa perca força e que finalmente tenhamos coragem de ouvi-los novamente.

Se existe algo que aprendi nessa caminhada é que nunca é tarde para voltar a sonhar.

Nunca é tarde para começar um curso.

Nunca é tarde para viajar.

Nunca é tarde para aprender um idioma.

Nunca é tarde para mudar.

Nunca é tarde para se redescobrir.

Talvez a pergunta não seja onde guardamos nossos desejos depois dos quarenta.

Talvez a verdadeira pergunta seja:

Estamos prontas para abrir a gaveta e reencontrá-los?

Porque, no fim das contas, ainda existe muita vida para viver. ❤️

Sobre a Autora

Uma Mulher Real: Sobre a autora: Ilvia Hortz é a fundadora do Uma Mulher Real e produz conteúdos sobre, Autoestima, autoconhecimento, bem estar e as autodescobertas de mulheres 40+. Como mulher, mãe e apaixonada por pesquisar temas relacionados ao universo emocional, busco apresentar meus aprendizados e minhas descobertas de forma leve, amigável e acolhedora.